domingo, 16 de outubro de 2011

LEITURA DOS TEXTOS FILOSÓFICOS


Jorge Alberto Molina'
"Queremos aqui caracterizar aquelas produções textuais que classificamos como textos de Filosofia. Num romance, como Madame Bovary, os personagens são seres humanos, reais ou fictícios, como Ema Bovary, Monsieur Homais, o Doctor Bovary etc. No texto filosófico, os personagens são as teses defendidas. Essas teses estão apoiadas sobre argumentos. O texto filosófico é um texto de tipo argumentativo. Mas essa é ainda uma caracterização muito geral, pois um ensaio sociológico, um editorial de jornal, um sermão, são também textos argumentativos. De maneira que essa descrição é insuficiente, a menos que precisemos, com mais exatidão, quais são os traços específicos da argumentação filosófica. O que dificulta ir além daquela caracterização muito geral é o fato de o discurso filosófico manifestar-se através de uma grande variedade de gêneros textuais diferentes".
Antes de Sócrates, a Filosofia usou como forma de expressão a poesia, e ainda no período roma­no-helenístico encontramos De rerum natura, de Lucrécio, como exemplo de poema filosófico. Platão e também Aristóteles usaram o diálogo como veículo para expressar suas ideias. O diálogo filosófico está presente até na Idade Moderna, lembremos por exemplo o Diálogo sobre a conexão entre as ideias e as palavras, de Leibniz, e os Três diálogos entre Hilas e Filonius, de Berkeley. As cartas têm servido como instrumento de expressão de ideias filosóficas. Podemos citar exemplos célebres como a correspondência entre Leibniz e Clark sobre a natureza do espaço e do tempo, a correspondência entre Leibniz e Arnauld sobre a noção de substância, as cartas a Lucílio de Sêneca etc. A autobiografia tem sido usada para expressar concepções filosóficas, assim As Confissões de Santo Agostinho e as de Rousseau. Os filósofos também se apropriaram do gênero apologético e, como mostra disso, encontramos a Apologia de Sócrates, de Platão, A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, e Os pensamentos, de Pascal. O tratado científico foi introduzido por Aristóteles como gênero textual para a expressão de filosofemas. Existem também textos filosóficos formados a partir de aforismos, como o Tractatus, de Wittgenstein. Face a essa grande variedade de gêneros textuais usados pelos filósofos, nos perguntamos sobre a justificativa para colocar produções pertencentes a gêneros tão diferentes sob o rótulo comum de texto filosófico.[ ... ]
Podemos, então, afirmar o seguinte: parece difícil apontar a priori um conjunto de marcas neces­sárias e suficientes que outorguem uma especificidade ao texto filosófico. Não podemos definir o texto filosófico por meio de uma cláusula do tipo 'texto filosófico é ABC, e somente aquilo que seja ABC. .. poderá ser chamado de texto filosófico'. No entanto, pensamos que, malgrado a impossibilidade de definir diretamente o que é um texto filosófico, podemos obter luz sobre o nosso tema, comparando o discurso filosófico com outros tipos de discursos: o científico, o jurídico, o teológico e o literário.
[ ... ]
Diferenciar a Filosofia da Literatura é mais difícil, e tememos que qualquer critério de demarcação que seja dado entre as duas disciplinas possa ser sempre impugnado. Platão considerava que a Poesia busca comover e que a Filosofia procura a verdade3. O bom poeta, segundo ele, é aquele que sabe provocar em nós as emoções apropriadas. Aristóteles considerava o discurso poético como aquele que representa coisas fictícias como possíveis, enquanto a Filosofia é um discurso que expressa o que é, da forma que ele é. Ou, dito de outra forma, o discurso filosófico descreve como é o que existe4. Hegel considerava que a arte representa o universal sob a forma da sensibilidade, ao passo que a Filosofia representa o universal sob a forma de conceitos. Agamêmnon representa a hybris ou desmesura comum a vários governantes; Antígona e Creonte, o conflito entre a razão de estado e a piedade familiar; Dom Quixote, o espírito sonhador e aventureiro.
Personagens da literatura representam conceitos ou situações universais. Então, baseados naqueles três filósofos, podemos dizer que o discurso literário se diferencia do filosófico pelo fato que: I) ele busca suscitar em nós emoções; II) ele tem um caráter fictício; lII) ele representa situações universais (o universal) sob a forma de um conjunto de representações individuais."
I Doutor em Lógica e Filosofia da Ciência pela UNICA MP, professor do Departamento de Ciências Huma­nas c docente do Mestrado em Letras da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC.
2 Estou usando a distinção entre gêneros e tipos textuais apresentada em Marcuschi (2002).
3 RepÚblica X, 605d-607d.
4 "Pelo exposto se torna óbvio que a função do poeta não é contar o que aconteceu mas aquilo que poderia acon­tecer, o que é possível, de acordo com o princípio de verossimilhança e da necessidade" (Poética, 51 a 36-51 b 11). "Deve preferir-se o impossível verossímil ao possível inverossímil" (Poética, 60a 27).
5 "[ ... ] a função da arte consiste em tornar a ideia acessível à nossa contemplação, mediante uma forma sensível e não na figura do pensamento e da espiritualidade em geral [ .. .]" Hegel (1993). p. 47.
A leitura dos textos filosóficos. Revista Signo, v. 31. 2006. p. 37-47. Disponível em: article/viewFile/438/291>. Acesso em: 13 ago. 2009.
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Fontes: (SÃO PAULO-SEE, Caderno do professor: Filosofia, EM, 3ª S., V.4, pp.10-11)

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